Deus ainda respira

Deus ainda respira

 

Autor: Michel Onfray
Fonte: Tratado de ateologia: física da metafísica. Trad. de Monica Stahel. – São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007 (pag. 3-5)

 

Deus está morto? Ainda é preciso ver… Uma tal boa notícia teria produzido efeitos solares dos quais continuamos esperando, e em vão, a menor prova. No lugar e local de um campo fecundo descoberto por tal desaparecimento constata-se antes o niilismo, o culto do nada, a paixão pelo nada, o gosto mórbido pelo noturno dos fins de civilizações, o fascínio pelos abismos e pelos buracos sem fundo em que se perde a alma, o corpo, a identidade, o ser e todo interesse por o que quer que seja. Quadro sinistro, apocalipse deprimente…

A morte de Deus foi um artifício ontológico, número de mágica consubstancial a um século XX que vê a morte por toda a parte: morte da arte, morte da filosofia, morte da metafísica, morte do romance, morte da tonalidade, morte da política. Que se decrete hoje então a morte dessas mortes fictícias! Essas notícias falsas em outros tempos serviam a alguns para cenografar paradoxos antes da virada de casaca metafísica. A morte da filosofia permitia livros de filosofia, a morte do romance gerava romances, a morte da arte obras de arte, etc. A morte de Deus, por sua vez, produziu sagrado, divino, religioso, seja o que melhor for. Hoje nadamos nessa água lustral.

Evidentemente, o anúncio do fim de Deus foi ainda mais tonitruante por ser falso… Trombetas embocadas, anúncios teatrais, rufaram tambores alegrando-se cedo demais. A época desaba sob as informações veneradas como a palavra autorizada de novos oráculos e a abundância se faz em detrimento da qualidade e da veracidade; jamais tantas informações falsas foram celebradas como verdades reveladas. Para que a morte de Deus se verificasse, seria preciso haver certezas, indícios, peças convincentes. Ora, falta tudo isso…

Quem viu o cadáver? Com exceção de Nietzsche, e olhe lá… À maneira do corpo de delito em Ionesco, teríamos sentido sua presença, sua lei, ele teria invadido, emprestado, fedido, teria se desfeito pouco a pouco, dia após dia, e não teríamos deixado de assistir a uma real decomposição – também no sentido filosófico do termo. Em vez disso, o Deus invisível quando vivo continuou invisível mesmo morto. Produto publicitário… Ainda se esperam as provas. Mas quem as poderá dar? Que novo insensato para essa impossível tarefa?

Pois Deus não está morte nem moribundo – ao contrário do que pensam Nietzsche e Heine. Nem morto nem moribundo porque não mortal. Uma ficção não morre, uma ilusão não expira nunca, não se refuta um conto infantil. Nem o hipogrifo nem o centauro estão submetidos à lei dos mamíferos. Um pavão, um cavalo sim; um animal do bestiário mitológico não. Ora, Deus pertence ao bestiário mitológico, como milhares de outras criaturas repertoriadas em dicionários de inúmeras entradas, entre Deméter e Dioniso. O suspiro da criatura oprimida durará tanto quanto a criatura oprimida, equivale a dizer para sempre…

Aliás, onde ele teria morrido? Em A gaia ciência? Assassinado em Sils-Maria por um filósofo inspirado, trágico e sublime, obsedante, selvagem, na segunda metade do século XIX? Com que arma? Um livro, livros, uma obra? Imprecações, análises, demonstrações, refutações? A golpes de aríete ideológico? A arma branca dos escritores… Sozinho, o assassino? Emboscado? Em bando: com abade Meslier e Sade como avós tutelares? Não seria um Deus superior o assassino de Deus se ele existisse? E esse falso crime não estará mascarando um desejo edipiano, um desejo impossível, uma irreprimível aspiração vã a cumprir uma tarefa necessária para gerar liberdade, identidade e sentido?

Não se mata um sopro, um vento, um cheiro, não se mata um sonho, uma aspiração. Deus criado pelos mortais à imagem deles hipostasiada só existe para tornar possível a vida cotidiana apesar da trajetória de todos e cada um em direção ao nada. Enquanto os homens tiverem que morrer, uma parte deles não poderá suportar essa idéia e inventará subterfúgios. Não se assassina, não se mata um subterfúgio. Seria antes ele, até, a nos matar: pois Deus mata a tudo que lhe resiste. Em primeiro lugar a Razão, a Inteligência, o Espírito Crítico. O resto segue-se por reação me cadeia…

O último deus desaparecerá com o último dos homens. E com ele o temor, o medo, a angústia, essas máquinas de criar divindades. O terror diante do nada, a incapacidade de integrar a morte como um processo natural, inevitável, com o qual é preciso compor, diante do qual só a inteligência pode produzi efeitos, mas igualmente a negação, a ausência de sentido além daquele que damos, o absurdo a priori, esses são os feixes genealógicos do divino. Deus morto suporia o nada domesticado. Estamos a anos-luz de um tal progresso ontológico…

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  • Livros relacionados com o tema

    Bertrand Russell - “Porque não sou cristão”
    Christopher Hitchens - “Deus não é grande”
    Daniel Dennett - “Quebrando o encanto”
    Júlio José Chiavenato - “Religião: da origem à ideologia”
    Michel Onfray - “Tratado de ateologia: física da metafísica”
    Richard Dawkins - “Deus, um delírio”
    Sam Harris - “Carta a uma nação cristã”

  • Albert Einstein

    “Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer idéia de um ser que sobreviva à morte de seu corpo. Se semelhantes idéias germinam em um espírito, para mim ele é um fraco, medroso e estupidamente egoísta.”
  • Dan Baker

    “Sou ateu porque não há evidência para a existência de Deus. Isso deve ser tudo que se precisa dizer sobre isso: sem evidência, sem crença.”
  • Joan Robinson

    “Poucas pessoas se dão ao trabalho de estudar a origem de suas próprias convicções. Gostamos de continuar a crer no que nos acostumamos a aceitar como verdade. Por isso, a maior parte de nosso raciocínio consiste em descobrir argumentos, para continuarmos a crer no que cremos.”
  • Isaac Asimov

    “Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los.”
  • Bertrand Russell

    “O fato de uma crença exercer bom efeito moral sobre um homem não constitui prova alguma a favor de sua verdade.”
  • Ashley Montagu

    “A ciência tem provas sem certeza. Os teólogos têm certeza sem qualquer prova.”
  • Ludwig Feuerbach

    “Sempre que a moralidade baseia-se na teologia, sempre que o correto torna-se dependente da autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser justificadas e estabelecidas.”
  • Karl Marx

    “A religião é o suspiro da criatura aflita, o estado de ânimo de um mundo sem coração, porque é o espírito da situação sem espírito. A religião é o ópio do povo.”
  • Friedrich Nietzsche

    “O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de facto só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência.”